
LIVRO DE MEMÓRIAS DA VIAGEM DE HANS STADEN. Séc. XVII.
Lote 124
Descrição
manuscrito. LIVRO DE MEMÓRIAS DA VIAGEM DE HANS STADEN. Séc. XVII. In-4º de 51 fólios. Enc.
Manuscrito curioso do relato deste aventureiro durante as suas viagens e a sua estadia no Brasil. Descreve várias ilhas e costumes dos povos por onde passou. Descreve também o navegador inglês Francis Drake a interagir com populações nativas da América, detalhando os seus rituais, habitações ("choupanas"), vestuário ("pelles de veado") e a entrega de "coroas".
Hans Staden (ou João Estádio, em português arcaico). Veio para Portugal com a intenção de viajar para as Índias, mas acabou por viajar para o Brasil. Embarcou em abril de 1548, num navio mercante português comandado pelo capitão Penteado. A frota tinha como objetivos transportar colonos, recolher pau-brasil e combater navios piratas franceses que contrabandeavam na costa brasileira.
O navio chegou ao Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) em janeiro de 1549, após cerca de 8 meses de viagem (com paragens em Cabo Verde). Ao desembarcarem, o governador local pediu ajuda urgente aos tripulantes, a vila de Igaraçu estava sitiada por cerca de 8.000 indígenas da tribo dos Caetés. Staden e um grupo de cerca de 40 homens armados reforçaram a defesa da vila. Graças às armas de fogo e à tática militar, conseguiram romper o cerco e salvar os colonos portugueses.
Ficou famoso por sobreviver a nove meses de cativeiro entre os índios Tupinambás, que praticavam rituais de antropofagia (canibalismo).
Staden foi surpreendido e cercado por um grupo de guerreiros Tupinambás que estavam escondidos na mata. Os Tupinambás eram inimigos mortais dos colonos portugueses e aliados dos franceses. Hans Staden tentou correr, mas foi derrubado, despido e amarrado. O seu escravo tentou defendê-lo, mas acabou por ser morto no local. Pouco depois da sua chegada, uma forte epidemia de peste e disenteria atingiu a aldeia, matando vários membros da tribo, incluindo o chefe local. Staden convenceu os indígenas de que o Deus dele estava profundamente zangado com os Tupinambás por quererem matá-lo, e que aquela doença era um castigo divino. Graças a este estatuto de "prisioneiro sagrado" e temido, Hans Staden conseguiu manter-se vivo na aldeia durante nove longos meses. Ele foi obrigado a testemunhar o sacrifício e a antropofagia de outros prisioneiros (indígenas de tribos inimigas e portugueses), vivendo sob o terror constante de ser o próximo.
Transcrevemos alguns enxertos:
“e navegando com bom tempo cheguei à cidade de Setúbal aos 14 de Março do ano de 1547. Daqui caminhando algumas léguas cheguei a Lisboa, na dita cidade me detive algum tempo...”
“Chegou-se a mim uma velha, e começou a arrancar-me as pestanas e sobrancelhas, e queria também arrancar-me a barba, mas eu não quis consentir... e assim andaram os dias e depois me rapavam com uma navalha que os Franceses lhes deram."
"...chorando as sepulturas dos maridos, cortados os cabelos por baixo do som... e espalhando-os pelas sepulturas, põem os adornos nas sepulturas... as armas dos maridos, e as conchas por que bebiam o vinho... dos seus maridos eram vários e valerosos, feitos estas covas... mas não querem casar legítimas vezes se não tornam a crescer as unhas dos dedos, as quais cobrem os ombros, também deixam crescer as unhas das mãos, e dos pés, e as pontas das ditas... para que fiquem mais agudas; e isto o fazem principalmente as mulheres, porque se podem agarrar de todos os inimigos..."
Algumas folhas com a tinta oxidada que fez furos no papel, a última folha com restauro e perda de texto. Encadernação inteira de pele, com ferros a ouro na lombada e pastas.
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